segunda-feira, 29 de agosto de 2016

elaborando abandonos
vou preencher teu não corpo com o meu movimento
luz cega

vou palpitar pelos espaços
como tambores resistentes
vou viver, com respiração resiliente

convencendo meus demônios absurdos
aprendendo a viver, década por década
ressignificando os dias a cada dia

se isso é inferno
pedra de Sísifo
eterna repetição

vou estender esteiras
me deitar no chão
perceber areia
crescer três tons


quarta-feira, 24 de agosto de 2016

segunda-feira, 22 de agosto de 2016

eu rabisco a tua cara
eu rabisco a tua cara
eu rasgo a tua foto
eu arrasto o teu cadáver
eu te faço café da tarde

eu rabisco a tua cara
eu rabisco o teu rosto
eu rasgo a tua foto
eu queimo a tua foto
eu arrasto o teu corpo
eu cozinho o teu cadáver


eu te faço café da tarde

domingo, 21 de agosto de 2016

que teu nome desapareça
fantasia não precisa ser rosto

jamais sorrirei para teus lábios
com teu suor em minhas coxas abaladas

o que inventei
tem nome de distância
Pássaros podem cair
para materializar o tom do silêncio

então o silêncio flui
é a prece dos que pedem
é a oração dos que contemplam

silêncio alto o suficiente
para calar um mundo de fogueiras

silêncio alto
e o abafar de tilintar de talher, de prato

em almoços e jantares
nos quais me devoram

sexta-feira, 19 de agosto de 2016

de novo o quarto escuro
os véus de penumbra
sobre os lençóis
sob os lençóis
as impressões de totalidade

quinta-feira, 18 de agosto de 2016

A cama verde continua ali
Exibindo seus pontos púrpuras
A um pulo
Esta sua promessa de silêncio 

terça-feira, 16 de agosto de 2016

escorregando
escorregando
de braços abertos
peito exposto
para uma cama verde
viva e verde
pra lá do sol laranja
arrebol
lua cinza
escorrendo
onde não há
e não existe
escorrendo
posso ser liquido
porém denso

eu me protegi num mundo morno
numa cama morna
num banho fresco
no sol tocando a janela apenas poente


mas o coração precisa voltar a bater

talvez pra animar o corpo doente
doente e vivo

sábado, 13 de agosto de 2016

Você é como erva que me arranca
 Que me apresenta o paraíso de leveza
e de manhã o peso da ausência

É como cachaça
Intercalando a loucura boa
com a infernal

Você é droga
Me faz mal

Você é música alegre
Que se custa a admitir que é ruim
Você me dói
Me esmaga
Me frustra, me irrita, me faz ruir
Você é obra iniciada sem fim

quinta-feira, 11 de agosto de 2016

Eu nasci aos trinta anos
Isto é apenas berro daquilo que surge vivo
Se fecho os olhos, na escuridão, posso ver o silêncio
E então com os espaço vazios de meu corpo posso dançar

O que é aspirar aquilo que só é desconhecido?

Se fecho os olhos e respiro fundo
Engulo um pouco do silêncio primordial

E com a ausência do meu corpo posso girar em torno do que é leve 
Um andar que esvaeça os pés
Fugir até desaparecer
Ser seu próprio fantasma
Se minha imagem fosse veneno
Assassinando os desejos tortos
Os meus passos seriam o silêncio
Eu quero que som de chuva substitua as palavras
Quero que a quebra do mar substitua as palavras
Quero que a lua azul substitua os quadros              
E a cidade se console na respiração dos que dormem
Desejo esse silêncio sonoro
Meu desejo mais secreto

domingo, 7 de agosto de 2016

as vezes eu quero falar sobre o silêncio
mas só vejo o quão ridículo isso ecoa


o silêncio tem muitos nomes

sábado, 6 de agosto de 2016

só há casa na solidão
só há parede na solidão
só há cama na solidão
só há sono na solidão

só há poesia na solidão
só há alegria na solidão
só há conforto na solidão
só é possível a solidão

só se cresce na solidão
só floresce a solidão
só há quadro
só há tela

só há amanhã se há solidão


só há morte na solidão
só há adolescência se há solidão
só há parto na solidão
vivo porque há solidão

só há estrada na solidão
só há trago na solidão
só solidão se consome
e aí há solidão

só há século na solidão